Olhos de Inocência

•janeiro 6, 2008 • 5 Comentários

Esse é meu primeiro texto no meu Blog. Tenho que agradecer muito a meu amigo TCZ, que me ajudou a vir até aqui, e apesar de ser reclamão as vezes, é um cara legal, e me mostra muitas vezes a realidade.

 Eu poderia escrever uma bela poesia. Poderia citar pessoas famosas ou que fizeram história. Poderia escrever uma bela canção. Mas, eu não tenho inspiração para isso no momento. Então, para inaugurar esse blog, contarei aqui uma história que aconteceu comigo e modificou em muito o que sou hoje. 

Era uma tarde de quinta feira. Eu, como a maioria dos alunos, já tinha me cansado do colégio, e tudo que eu queria era um tempo maior de férias.

 Andando pela rua, encontro um amigo meu, que usando meia duzia de palavras, conseguiu me convencer a fazer o que eu já queria: Matar aula para ficar na rua.

Depois de muito pensar, com pouco dinheiro no bolso, decidimos pegar um ônibus e vadiar em algum lugar em que teríamos menos chance de ser vistos por conhecidos. Paramos em uma rua de feira sempre movimentada, mas que naquela hora da manhã em que saímos, encontráva-se vazia, e esperando o primeiro batalhador matinal arrumar seu canto e iniciar seu batente.

Parados e entediados, enquanto esperávamos para que o movimento tivesse início, ou que algum outro aluno, cansado das aulas como nós, nos encontrasse e iniciasse uma conversa que seguiria até 13:00, quando voltaríamos para casa. Até ai, tudo normal, se não fosse por um fato que mudaria para sempre meu pensamento sobre o mundo, os conceitos e as pessoas.

Vimos um sujeito que se aproximava lentamente. Um senhor, muito idoso. Aparentava ter em média 60 anos, magro, barba por fazer. Carregava tristeza nos olhos, e nas costas, um conjunto de canos de plástico.

Ele se aproximou calmamente, e, muito gentil, perguntou se poderíamos tomar conta do seu achado, para que ele pudesse tomar café. Como não tinhamos muito o que fazer, topamos.

Esperamos calmamente o idoso homem, que comia calmamente, dentro de uma lanchonete que já abria. Estranhamos o modo de agir do homem, mas mesmo assim, continuamos alí, em nosso serviço de preguiça.

Quando o homem se aproximou novamente, agradeceu, e sentou-se ao nosso lado, soltando um pequeno gemido de cansaço, e iniciou uma conversa. Eu observava o homem, e sentia receio de me aproximar, sendo manipulado pelo meu preconceito infantil. Mas, a medida que a conversa prosseguia, o modo de falar comovente e acolhedor do velho homem nos animava e nos infiltrava cada vez mais no assunto. Nos tornamos cúmplices de instantes.

Ele contou sua história. Contou que tinha família. Esposa, filha, casa e trabalho. Mas, por não seguir a verdade do mundo, perdeu tudo o que possuía. Tentou ser uma boa pessoa, mas, isso trazia raiva a sua mulher, que, via seus amigos mudando de vida, e eles parados no mesmo lugar por causa da caretice do marido.

Então, ele decidiu seguir os outros. Se entregar a corrupção. Diminuir o caráter para aumentar o lucro. Tudo deu errado. Ele foi pego e preso. Perdeu o que tinha.

A mulher não queria ficar com um fracassado. A filha sentia nojo de ser relacionada a um marginal. Os amigos, sumiram todos. Tudo que lhe sobrou foi o conhecimento e a vida.

O homem falava de um jeito manso e bonito. Palavras difíceis, bom porte, sabia falar.

Falou que, aprendeu a lição. Labutar com ser humano é pior que pedir benção ao diabo. Por querer ser igual aos outros, nada conseguiu. Mas, carregava consigo a alegria, porque sabia que era uma boa pessoa, e que ainda possuia a vida e a fé.

Então, eu olhei para aqueles olhos puros, bondosos, que transmitiam esperança. Então, percebi a verdade. Uma pessoa não se faz de aparências, tão pouco de seu conhecimento, mas sim de seu caráter. E então, percebi que as pessoas são cegas e observam apenas a imagem que a própria aprende desde a juventude. Eu possuia olhos mas não enxergava, mas, depois disso, passei a ver a verdade do mundo. Que a simplicidade e a bondade não estão entregues a preconceitos e aparências, mas sim, a bondade e o caráter da pessoa.

Depois disso, apertei a mão do senhor e me despedi dele, sem saber ao menos seu nome. Eu e meu amigo então, voltamos para casa, mas carregamos para sempre essa lição. A lição que aprendemos naquelas olhos bondosos. Olhos de inocência.